Home Data de criação : 07/05/01 Última atualização : 12/05/04 08:30 / 267 Artigos publicados

Alfred Schnittke (1934-1998) - II  (CAIXA DE MÚSICA) escrito em quinta 03 maio 2012 10:11

Blog de georgeshenry : Maestro Georges Henry, Alfred Schnittke (1934-1998) - II

O compositor de música sinfônica, quase sempre,

é um solitário perdido na infinitude do seu espírito. 

 

 

Como prometido no último blog, eis aqui o Segundo Movimento da Sinfonia nº 0: Allegro Vivace de Alfred Schnittke, este gênio que nos anos em que era ainda aluno do Conservatório de Moscou, escreveu esta sinfonia maravilhosa concebida e orquestrada e maravilhosamente interpretada, agora, 40 anos depois, pela surpreendente Cape Philarmonic Orchestra, da Cidade do Cabo, África do Sul.

 

Permitam minhas caras amigas e meus amigos que manifeste meu entusiasmo especial por este Segundo Movimento que me parece aqui merecer bem o caráter “polystylistic”, adjetivo que a crítica musical deu a Schnittke: tanto para as músicas encomendadas, de cerimônias oficiais soviéticas (e compostas a contra gosto) quanto para as obras sinfônicas de juventude assim como para as músicas de inúmeros  filmes do tempo da Rússia Soviética.

 

O que se pode dizer, de acordo com o crítico Alexander Ivashkin, é que nesse “polistilismo” - com o perdão do neologismo rsrsrs -  o fantástico Alfred Schnittke recebeu influências dos mais antigos mestres como Nicolaï MyaskovskyEvgeny  Golibev, ScriabineRachmaninoff, dos super técnicos como Paul Hindemith e até de Carl Orff da Carmina Burana.

 

No fim de sua carreira, tocado pela fé religiosa intensa (ele se converteu a fé católica), ele compôs os “Salmos da Contrição” que são eletrizantes pela aparição freqüente de dissonâncias quase físicas que para mim soam como suplicações explícitas.

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Alfred Schnittke (1934-1998) - I  (CAIXA DE MÚSICA) escrito em quarta 25 abril 2012 09:49

Blog de georgeshenry :Maestro Georges Henry, Alfred Schnittke (1934-1998) - I

 

Foi Marc Boillaud - filho de família muito amiga da minha e da de minha mulher Denise, - luthier de profissão, renomado na França, quem me levou a conhecer Alfred Schnittke. Foi numa noite de jantar na casa do Marc, em Brasília – acabava de casar com Elisa, uma senhora brasileira que era alta funcionária do Ministério da Cultura do Brasil – quando, depois de apresentar-me uma gravação (mini-cassete) ao vivo, fiquei sem voz de tão impressionado. Com o coro do Ministério da Cultura da União Soviética, ouvi o que o espírito de um compositor russo especialista em música coral fora capaz de criar tendo como instrumento de seu gênio e ciência esse grupo de mais de cem cantoras e cantores, dotados dessas vozes tão especiais - principalmente os baixos – mas, mais do que tudo, músicos excepcionais capazes de afinações tão perfeitas que, no emaranhado de harmonias hiper-complexas passavam de dissonâncias infernais a harmonias paradisíacas.

 

Ultimamente, porém, consegui uma gravação da mesma composição pelo Coro da Rádio Sueca ainda mais estupendo, pois além das mesmas qualidades musicais e das extraordinárias performances de afinação (menos as notas "baixas" dos russos) eles, esses suecos, cantam em russo! O único inconveniente para quem dos meus ouvintes com tempo escasso é a duração da gravação que é de 15 minutos. Os impacientes poderão socorrer-se com a gravação de 13 de setembro de 2007 deste mesmo spaceblog que é a dos próprios russos e que não consegui (por falta de habilidade técnica) transferir de lá para cá rsrsrs.

 

Mas, voltando ao mesmo Alfred Schnittke e, após ter examinado os relatos que se tem aqui sobre a vida desse fenômeno russo-alemão-judio, elevado até os mais altos níveis da arte e da música pelo Conservatório de Moscou, é justo concluir que os graves problemas de saúde (vários AVC e muitos anos de saúde precária) foram os responsáveis pela transformação de sua alma cheia de novidades e de rica criação artística (que a crítica mundial chamou “polystylistic”), até chegar a este momento de música coral de caráter religioso, que fez parte de uma obra importante com o título de “Salmos da Contrição” e que poderão ouvir agora.

 

É esta gravação que ofereço agora como referência para compará-la ao que irão ouvir depois. Para quem gosta de música e de sons, o cassete que recebia do meu amigo em Brasília e que já me apressava em oferecer aos meus amigos blogueiras e blogueiros, aqui mesmo, há cinco anos, servirá, como poderá servir este da Rádio Sueca, para comprovar, mais uma vez, que a arte vive de contrastes e que o grande compositor, na música, se reconhece pela variedade contrastante de sua obra.

 


Dissonâncias Místicas

 

 

 

 

 

Blog de georgeshenry : Maestro Georges Henry, Alfred Schnittke I

Schinttke, jovem, a caminho de D. Shostakovich


Se na gravação que acabam de ouvir, minhas amigas e meus amigos, amantes de música e de som foram capazes – por amor à cultura - de acompanhar até as profundezas os belíssimos sons dos baixos russos ou das performances do Coral da Rádio Sueca e de suportar os fantásticos, geniais e até mórbidos choques harmônicos (falava eu de dissonâncias infernais), poderão agora ouvir, do jovem Alfred Schnittke, ainda aluno do Conservatório de Moscou, este primeiro momento da Sinfonia em 4 movimentos e que foi, algum tempo depois, identificada com o nome de Sinfonia n°0. Sob a influência, sem dúvida, numa mesma inspiração romântica e moderna, de Dimitri Shostakovich, eu escolhi este primeiro movimento desta Sinfonia que fala alto daquele que seria, anos depois, tido como o segundo maior compositor russo contemporâneo. Alfred Schnittke morreu 23 anos depois de Shostakovich, em 1998, após vidas atribuladas, feitos, os dois, marionetes indóceis nas mãos de burocratas soviéticos aos quais o poder confiava a tarefa de controlar e dirigir os compositores e artistas em geral das cumbres misteriosas da arte para os labirintos fétidos da política soviética.

 

Este Primeiro Movimento “Allegro ma non troppo” mostra a sensibilidade do Alfred Schniktte que por amor à mãe católica russa, de judeu (que era seu pai alemão) se converteu ao catolicismo e, por amor e respeito ao seu pai, falava muito alemão embora declarasse que sua língua fosse a russa. Herdeiro de três culturas, a judia, a russa e a alemã, Alfred Schnittket, amante dos seus pais, típicos representantes das misturas que transformaram em “infernos na terra” estas regiões extraordinariamente críticas da Europa e da Rússia neste século XX de maldição e de sublime. Como tudo o que é humano!

 

A descoberta de um Alfred Schnittke jovem, eu a devo ao meu filho Philippe, sempre atento, graças à sua sensibilidade musical de primeira classe, a tudo o que acontece no mundo musical moderno.


Merece menção especial, na música que vão ouvir, a qualidade da "Cape Philarmonic Orchestra" - Orquestra Filarmônica da Cidade do Cabo, África do Sul - dirigida por Owain Arwel Hughes, maestro de renomada atuação na Europa do Norte (especialmente Inglaterra e Países Escandinavos). Foi, para mim uma enorme surpresa pela alta qualidade musical e o apuro incomum da técnica de gravação.


Primeiro Movimento da Sinfonia nº 0: Allegro ma non troppo


A semana próxima, quem gostou deste Primeiro Movimento gostará muito mais do Segundo: Allegro Vivace, como eu gostei.

Blog de georgeshenry : Maestro Georges Henry, Alfred Schnittke (1934-1998) - I

Me emociona muito esta foto de Alfred Schnittke pouco tempo antes de morrer. É bem ele, no último tempo de vida de um gênio musical que, como tantos deles, foi marcado por grandes sofrimentos.
 

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É possível faire chanter (fazer cantar) dissonâncias?  (CAIXA DE MÚSICA) escrito em terça 06 março 2012 07:15

Blog de georgeshenry :Maestro Georges Henry, É possível faire chanter (fazer cantar) dissonâncias?

Apesar do divino talento de pianista improvisador, o Stefano Bollani é brincalhão, gosta de se fazer de palhacinho. Só que, quando na frente do piano, improvisando, é um finíssimo artista. 

 

Hoje, após semanas de “relativa” preguiça (a razão principal: muitos alunos, graças a Deus), sentimos, minha mulher e eu, algo como o desejo de reouvirmos um pianista italiano, já descoberto e apresentado neste blog, meses atrás, numa composição dele com o título de “Antonia”, Stefano Bollani.

 

Pensamos que teríamos talvez algumas novas referências dele no incrível You Tube.  E achamos. É um trabalho sobre a belíssima e super elaborada canção do Tom Jobim: “Retrato em preto e branco”. Stefano Bollani consegue, a partir dessa melodia, já, até complexa demais, elaborar improvisações surpreendentes porque,  desde um tema nascido belíssimo, e graças a um conhecimento extraordinário da harmonia e de um talento pouco comum, ele melhora ainda mais a sensação que tivemos de ver nele, Stefano Bollani, mais um músico moderno com fortes ligações eruditas e extraordinária capacidade.

 

Minha mulher Denise, aliás, cunhou uma frase antológica da que tomei nota e que ofereço a minhas amigas e amigos deste blog preguiçoso, em especial ao meu querido amigo e aluno de francês, o doutor Luiz Favret, que ama a música: “É a primeira vez que eu ouço um pianista e harmonista capaz de 'faire chanter', fazer cantar, dissonâncias”. As e os de nossos amigos que sabem música já entenderam sem dificuldade. Às e aos que não são do ramo, rsrsrs, direi simplesmente que dissonâncias são choques harmônicos em princípio desagradáveis ao ouvido humano. Fazer cantar dissonâncias é simplesmente acabar com o lado ingrato delas para dar-lhes novas qualidades que se poderão apreciar neste Youtube que achamos muito belo. Obrigado Mr Youtube!

 

A primeira vez que ouvi Stefano Bollani imaginei que fosse um artista de altíssima ciência e gênio da harmonia. Sendo assim, havia grandes chances que fosse um músico "aéreo" (no bom sentido da palavra). Nada disso, é até um pouco palhaço, e, nisso me lembra meu velho companheiro Henri Salvador que, além de músico completo, teve funerais nacionais em Paris por ser reconhecido como o melhor humorista profissional da França...

 


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”La musique adoucit les moeurs” – A música suaviza os costumes  (MEUS CAROS AMIGOS) escrito em quarta 21 dezembro 2011 05:31

 Recebi este filmezinho de um grande amigo. Mais uma prova do poder da Música, Musa da Paz.

 

 

O título deste blog é o texto de um provérbio francês muito antigo e este filmezinho é para acrescentar-lhe graça, levar a sorrir e a pensar. Estas vaquinhas inocentes, curiosas e finalmente conquistadas pela música são retratos de Paz. Desta paz que minha Denise e eu desejamos para todos nós neste Natal e nesta entrada do Ano Novo.

Muitos beijos e abraços a todas e todos e que nos acompanhem o Menino Jesus, sua Santa Mãe Nossa Senhora do Sagrado Coração e nosso caro São Charbel. 

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Stravinsky, o engenheiro do caos  (CAIXA DE MÚSICA) escrito em quarta 23 novembro 2011 05:27

Blog de georgeshenry :Maestro Georges Henry, Stravinsky, o engenheiro do caos

Gênio não se preocupa com as aparências

 

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

 

O título tem um ar de brincadeira, mas não pode haver dúvida de que Stravinsky, com seu imenso gênio musical, sua erudição, sua gigantesca imaginação ficará na história como o ícone e o verdadeiro ponto de partida dos caminhos que, a partir dele, foram para a desorientação total que levou a música a situações radicais como a que certos “inventores” realizaram quando compuseram  músicas para serem lidas em partituras e exclusivamente lidas, negando-se assim, o caráter fundamental da música que consiste em sons para serem ouvidos e não notas ou até harmonias e ritmos a serem lidos: absurdo total que é. E ainda totalmente sem graça, nem interesse para quem quer que seja.

 

Stravinsky, por ser gênio, se permitiu fantasias como as de imitar, copiar, transformar, mascarar e brincar de todas as formas até produzir obras primas e verdadeiros monumentos a provocar e materializar momentos históricos. Em 1913, no Théatre des Champs-Elysées, uma das mais prestigiosas salas de concertos de Paris, todas as pessoas que tem algum conhecimento da história da música sabem que é deste dia 29 de maio de 1913 é que se iniciou a desorientação na Música. Foi com a estréia do balé encomendado a Stravinsky pelo grande Sergio Diaghilev, mestre da coreografia dos Ballets Russes de Monte Carlo. A obra foi Le Sacre du Printenps, a Sagração da Primavera, que pelas fantásticas liberdades outorgadas a si próprio pelo Stravinsky transformou essa première num pugilato geral entre o publico a favor e o público escandalizado, transformando esse dia numa data histórica para a música erudita.

 

Clique para ver: "Sacre du Pritemps"

 

 

Circus Polka


Blog de georgeshenry : Maestro Georges Henry, Stravinsky, o engenheiro do caos


 O Circus Polka foi uma encomenda de Balanchine, outro grande maître de ballet dos sempre Ballets Russes  ao Stravinsky o qual, mais uma vez mostrou a liberdade incrível que ele continuava, anos depois, tomando com a música. Até na utilização de trechos de outros compositores. É o caso da Primeira Marcha Militar de Schubert que aparece em bom pedaço não mais como simples passagens furtivas, mas sim como trecho totalmente identificável, o qual, como cúmulo de esculhambação (desculpe a vulgaridade) quando este trecho de repente, a mim, lembrou uma publicidade de rádio que eu ouvia nos meus anos de criança. Até cheguei a lembrar, ajudado nisto pelo milagroso Google, o patrocínio da marca de um produto para embelezamento da pintura dos automóveis e que tinha nome Timbler.

 

Esta Circus Polka é uma das maiores expressões de um descompromisso com a seriedade (consta a este respeito um diálogo entre Balanchine e Stravinsky em que se fala de elefantes e de bailarinas, totalmente jocoso), típico do gênio de Stravinsky, descompromisso que encorajou os compositores que se seguiram a levar a música erudita à situação hiper problemática, em todos os sentidos, em que está hoje.

 

Clique para ver: "Circus Polka"

 

 


Scherzo à la RusseBlog de georgeshenry : Maestro Georges Henry, Stravinsky, o engenheiro do caos

 

Blog de georgeshenry : Maestro Georges Henry, Stravinsky, o engenheiro do caos

Gênio não se preocupa em evidenciar suas humanas deficiências


É claro que é tarefa difícil dar em poucas linhas e poucos exemplos uma ideia de quem foi esse gigante da Música Erudita Moderna. Numa das classes de musicologia que tive com o grande professor Dorel Handman na Schola Cantorum de Paris, há disto bons anos, o grande professor nos desafiou a identificar o autor de uma peça que os cinco ou seis alunos que éramos não duvidamos em atribuir a um dos mais típicos compositores do século 17. Foi, evidentemente, uma surpresa chocante saber que havia sido uma fantasia de ninguém mais do que Igor Stravinsky

 

E para terminar esta modesta tentativa de mostrar a importância histórica de Stravinsky como engenheiro do caos ... rsrsrs, eu gostaria de reapresentar uma peça que já inclui há alguns anos atrás neste mesmo spaceblog, o Scherzo à la Russe que, ao meu ver, mostra bem a genialidade de Stravinsky no dominio da orquestração sinfônica. A riqueza da harmonização, a utilização surpreendente dos instrumentos de sopro fazendo coro com as percussões desenvolvendo algo como um swing que não é nada mais do que o balanço inebriante a sensibilizar qualquer ser humano levando-o a dançar ou, na melhor das hipóteses, sair de qualquer torpor.

 

O swing do jazz americano, quando ele é autêntico, é essa entusiasmante qualidade que transformou toda a música popular e erudita do século 20, deixando-nos a beira deste impasse nestes anos, problemático entre todos, do início do século 21.

 

Clique para ver: "Scherzo à la Russe"

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