é um
solitário perdido na infinitude do seu espírito.
Como prometido no último blog, eis
aqui o Segundo Movimento da Sinfonia
nº 0: Allegro Vivace de Alfred
Schnittke, este gênio que nos anos em que era ainda aluno do
Conservatório de Moscou, escreveu esta sinfonia maravilhosa
concebida e orquestrada e maravilhosamente interpretada, agora, 40
anos depois, pela surpreendente Cape
Philarmonic Orchestra, da Cidade do Cabo, África do Sul.
Permitam minhas caras amigas e meus
amigos que manifeste meu entusiasmo especial por este Segundo
Movimento que me parece aqui merecer bem o caráter
“polystylistic”, adjetivo que a crítica
musical deu a Schnittke: tanto para as músicas encomendadas, de
cerimônias oficiais soviéticas (e compostas a contra gosto) quanto
para as obras sinfônicas de juventude assim como para as músicas de
inúmeros filmes do tempo da Rússia Soviética.
O que se pode dizer, de acordo com
o crítico Alexander Ivashkin, é que nesse
“polistilismo” - com o perdão do neologismo rsrsrs -
o fantástico Alfred Schnittke recebeu influências dos mais
antigos mestres como Nicolaï
Myaskovsky, Evgeny
Golibev, Scriabine, Rachmaninoff, dos super técnicos como
Paul Hindemith e até de
Carl Orff da Carmina
Burana.
No fim de sua carreira, tocado pela
fé religiosa intensa (ele se converteu a fé católica), ele compôs
os “Salmos da
Contrição” que são eletrizantes pela aparição
freqüente de dissonâncias quase físicas que para mim soam como
suplicações explícitas.
Foi Marc Boillaud - filho de família muito
amiga da minha e da de minha mulher Denise, - luthier
de profissão, renomado na França, quem me levou a conhecer
AlfredSchnittke. Foi numa noite de jantar na
casa do Marc, em Brasília
– acabava de casar com Elisa, uma senhora brasileira que era alta
funcionária do Ministério da Cultura do Brasil – quando,
depois de apresentar-me uma gravação (mini-cassete) ao vivo, fiquei
sem voz de tão impressionado. Com o coro do Ministério da Cultura da União
Soviética, ouvi o que o espírito de um compositor russo
especialista em música coral fora capaz de criar tendo como
instrumento de seu gênio e ciência esse grupo de mais de cem
cantoras e cantores, dotados dessas vozes tão especiais -
principalmente os baixos – mas, mais do que tudo, músicos
excepcionais capazes de afinações tão perfeitas que, no emaranhado
de harmonias hiper-complexas passavam de dissonâncias infernais a
harmonias paradisíacas.
Ultimamente, porém, consegui uma
gravação da mesma composição pelo Coro da Rádio Sueca ainda mais estupendo,
pois além das mesmas qualidades musicais e das extraordinárias
performances de afinação (menos as notas "baixas" dos russos) eles,
esses suecos, cantam em russo! O único inconveniente para quem dos
meus ouvintes com tempo escasso é a duração da gravação que é de 15
minutos. Os impacientes poderão socorrer-se com a gravação de
13 de setembro de 2007 deste mesmo
spaceblog que é a dos próprios russos e que não consegui
(por falta de habilidade técnica) transferir de lá para cá
rsrsrs.
Mas, voltando ao mesmo Alfred
Schnittke e, após ter examinado os relatos que se tem aqui sobre a
vida desse fenômeno russo-alemão-judio, elevado até os mais altos
níveis da arte e da música pelo Conservatório de Moscou, é justo
concluir que os graves problemas de saúde (vários AVC e muitos anos
de saúde precária) foram os responsáveis pela transformação de sua
alma cheia de novidades e de rica criação artística (que a crítica
mundial chamou “polystylistic”), até chegar a
este momento de música coral de caráter religioso, que fez parte de
uma obra importante com o título de “Salmos da Contrição” e que
poderão ouvir agora.
É esta gravação que ofereço agora
como referência para compará-la ao que irão ouvir depois. Para quem
gosta de música e de sons, o cassete que recebia do meu amigo em
Brasília e que já me apressava em oferecer aos meus amigos
blogueiras e blogueiros, aqui mesmo, há cinco anos, servirá, como
poderá servir este da Rádio Sueca, para comprovar, mais uma vez,
que a arte vive de contrastes e que o grande compositor, na música,
se reconhece pela variedade contrastante de sua obra.
Dissonâncias Místicas
Schinttke, jovem, a caminho de D.
Shostakovich
Se na gravação que acabam de ouvir,
minhas amigas e meus amigos, amantes de música e de som foram
capazes – por amor à cultura - de acompanhar até as
profundezas os belíssimos sons dos baixos russos ou das
performances do Coral da Rádio Sueca e de suportar os fantásticos,
geniais e até mórbidos choques harmônicos (falava eu de
dissonâncias infernais), poderão agora ouvir, do jovem Alfred
Schnittke, ainda aluno do Conservatório de Moscou, este primeiro
momento da Sinfonia em 4 movimentos e que foi, algum tempo depois,
identificada com o nome de Sinfonia n°0. Sob a influência, sem
dúvida, numa mesma inspiração romântica e moderna, de Dimitri
Shostakovich, eu escolhi este primeiro movimento desta Sinfonia que
fala alto daquele que seria, anos depois, tido como o segundo maior
compositor russo contemporâneo. Alfred Schnittke morreu 23 anos
depois de Shostakovich, em 1998, após vidas atribuladas, feitos, os
dois, marionetes indóceis nas mãos de burocratas soviéticos aos
quais o poder confiava a tarefa de controlar e dirigir os
compositores e artistas em geral das cumbres misteriosas da arte
para os labirintos fétidos da política soviética.
Este Primeiro
Movimento “Allegro ma non
troppo” mostra a sensibilidade do Alfred Schniktte
que por amor à mãe católica russa, de judeu (que era seu pai
alemão) se converteu ao catolicismo e, por amor e respeito ao seu
pai, falava muito alemão embora declarasse que sua língua fosse a
russa. Herdeiro de três culturas, a judia, a russa e a alemã,
Alfred Schnittket, amante dos seus pais, típicos representantes das
misturas que transformaram em “infernos na terra” estas
regiões extraordinariamente críticas da Europa e da Rússia neste
século XX de maldição e de sublime. Como tudo o que é humano!
A descoberta de um Alfred Schnittke
jovem, eu a devo ao meu filho Philippe, sempre atento, graças à sua
sensibilidade musical de primeira classe, a tudo o que acontece no
mundo musical moderno.
Merece menção especial,
na música que vão ouvir, a qualidade da "Cape Philarmonic Orchestra" -
Orquestra Filarmônica da Cidade do Cabo, África do Sul
- dirigida por Owain Arwel Hughes, maestro
de renomada atuação na Europa do Norte (especialmente Inglaterra e
Países Escandinavos). Foi, para mim uma enorme surpresa pela alta
qualidade musical e o apuro incomum da técnica de
gravação.
Primeiro Movimento da Sinfonia
nº 0: Allegro ma non troppo
A semana próxima, quem
gostou deste Primeiro Movimento gostará muito mais do Segundo:
Allegro Vivace, como eu gostei.
Me emociona muito esta foto de
Alfred Schnittke pouco tempo antes de morrer. É bem ele, no último
tempo de vida de um gênio musical que, como tantos deles, foi
marcado por grandes sofrimentos.
Apesar
do divino talento de pianista improvisador, o Stefano Bollani é
brincalhão, gosta de se fazer de palhacinho. Só que, quando na
frente do piano, improvisando, é um finíssimo
artista.
Hoje, após semanas de
“relativa” preguiça (a razão principal: muitos alunos,
graças a Deus), sentimos, minha mulher e eu, algo como o desejo de
reouvirmos um pianista italiano, já descoberto e apresentado neste
blog, meses atrás, numa composição dele com o título de
“Antonia”,
Stefano Bollani.
Pensamos que teríamos talvez
algumas novas referências dele no incrível You Tube. E
achamos. É um trabalho sobre a belíssima e super elaborada canção
do Tom Jobim:
“Retratoem pretoe
branco”. Stefano Bollani consegue, a partir dessa
melodia, já, até complexa demais, elaborar improvisações
surpreendentes porque, desde um tema nascido
belíssimo, e graças a um conhecimento extraordinário da harmonia e
de um talento pouco comum, ele melhora ainda mais a sensação que
tivemos de ver nele, Stefano Bollani, mais um músico
moderno com fortes ligações eruditas e extraordinária
capacidade.
Minha
mulher Denise, aliás, cunhou uma frase antológica da que
tomei nota e que ofereço a minhas amigas e amigos deste blog
preguiçoso, em especial ao meu querido amigo e aluno de francês, o
doutor Luiz Favret, que ama a
música: “É a primeira vez que eu ouço um pianista
e harmonista capaz de 'faire
chanter', fazer cantar,
dissonâncias”. As e os de nossos amigos que
sabem música já entenderam sem dificuldade. Às e aos que não são do
ramo, rsrsrs, direi simplesmente que dissonâncias são choques
harmônicos em princípio desagradáveis ao ouvido humano. Fazer
cantar dissonâncias é simplesmente acabar com o lado ingrato delas
para dar-lhes novas qualidades que se poderão apreciar neste
Youtube que achamos muito belo. Obrigado Mr Youtube!
A primeira vez que ouvi Stefano
Bollani imaginei que fosse um artista de altíssima ciência e gênio
da harmonia. Sendo assim, havia grandes chances que fosse um músico
"aéreo" (no bom sentido da palavra). Nada disso, é até um pouco
palhaço, e, nisso me lembra meu velho companheiro Henri
Salvador que, além de músico completo, teve funerais
nacionais em Paris por ser reconhecido como o melhor humorista
profissional da França...
Recebi este filmezinho de um grande amigo.
Mais uma prova do poder da Música, Musa da Paz.
O título deste blog é o texto de um
provérbio francês muito antigo e este filmezinho é para
acrescentar-lhe graça, levar a sorrir e a pensar. Estas vaquinhas
inocentes, curiosas e finalmente conquistadas pela música são
retratos de Paz. Desta paz que minha
Denise e eu desejamos para todos nós neste Natal e nesta entrada do
Ano Novo.
Muitos beijos e abraços a todas e
todos e que nos acompanhem o Menino
Jesus, sua Santa Mãe Nossa Senhora do Sagrado Coração e nosso caro
São Charbel.
O título tem um ar de brincadeira,
mas não pode haver dúvida de que Stravinsky, com seu imenso gênio musical,
sua erudição, sua gigantesca imaginação ficará na história como o
ícone e o verdadeiro ponto de partida dos caminhos que, a partir
dele, foram para a desorientação total que levou a música a
situações radicais como a que certos “inventores”
realizaram quando compuseram músicas para serem
lidas em partituras e exclusivamente lidas,
negando-se assim, o caráter fundamental da música que consiste em
sons para serem ouvidos e não notas ou até harmonias e ritmos a
serem lidos: absurdo total que é. E ainda totalmente sem graça, nem
interesse para quem quer que seja.
Stravinsky, por ser gênio, se
permitiu fantasias como as de imitar, copiar, transformar, mascarar
e brincar de todas as formas até produzir obras primas e
verdadeiros monumentos a provocar e materializar momentos
históricos. Em 1913, no Théatre desChamps-Elysées, uma das mais prestigiosas salas de
concertos de Paris, todas as pessoas que tem algum conhecimento da
história da música sabem que é deste dia 29 de maio de 1913 é que
se iniciou a desorientação na Música. Foi com a estréia do balé
encomendado a Stravinsky pelo grande Sergio Diaghilev, mestre da coreografia
dos Ballets Russes de Monte Carlo. A obra foi Le Sacre du Printenps, a Sagração da Primavera, que pelas
fantásticas liberdades outorgadas a si próprio pelo Stravinsky
transformou essa première num pugilato geral entre o
publico a favor e o público escandalizado, transformando esse dia
numa data histórica para a música erudita.
O Circus Polka foi uma
encomenda de Balanchine, outro
grande maître de ballet dos sempre Ballets Russes ao
Stravinsky o qual, mais uma vez mostrou a liberdade incrível que
ele continuava, anos depois, tomando com a música. Até na
utilização de trechos de outros compositores. É o caso da
Primeira Marcha Militar de
Schubert que aparece em bom pedaço não mais como simples
passagens furtivas, mas sim como trecho totalmente identificável, o
qual, como cúmulo de esculhambação (desculpe a vulgaridade) quando
este trecho de repente, a mim, lembrou uma publicidade de rádio que
eu ouvia nos meus anos de criança. Até cheguei a lembrar, ajudado
nisto pelo milagroso Google, o patrocínio da marca de um
produto para embelezamento da pintura dos automóveis e que tinha
nome Timbler.
Esta Circus Polka é uma das maiores
expressões de um descompromisso com a seriedade (consta a este
respeito um diálogo entre Balanchine e Stravinsky em que se fala de
elefantes e de bailarinas, totalmente jocoso), típico do gênio de
Stravinsky, descompromisso que encorajou os compositores que se
seguiram a levar a música erudita à situação hiper problemática, em
todos os sentidos, em que está hoje.
Gênio
não se preocupa em evidenciar suas humanas deficiências
É claro que é tarefa difícil dar em
poucas linhas e poucos exemplos uma ideia de quem foi esse gigante
da Música Erudita Moderna.
Numa das classes de musicologia que tive com o grande professor
Dorel Handman na Schola Cantorum de Paris, há
disto bons anos, o grande professor nos desafiou a identificar o
autor de uma peça que os cinco ou seis alunos que éramos não
duvidamos em atribuir a um dos mais típicos compositores do século
17. Foi, evidentemente, uma surpresa chocante saber que havia sido
uma fantasia de ninguém mais do que Igor Stravinsky
E para terminar esta modesta
tentativa de mostrar a importância histórica de Stravinsky como
engenheiro do caos ... rsrsrs, eu gostaria de reapresentar uma peça
que já inclui há alguns anos atrás neste mesmo spaceblog,
o Scherzo à la Russe que, ao
meu ver, mostra bem a genialidade de Stravinsky no dominio da
orquestração sinfônica. A riqueza da harmonização, a utilização
surpreendente dos instrumentos de sopro fazendo coro com as
percussões desenvolvendo algo como um swing que não é nada
mais do que o balanço inebriante a sensibilizar qualquer ser humano
levando-o a dançar ou, na melhor das hipóteses, sair de qualquer
torpor.
O swing do jazz
americano, quando ele é autêntico, é essa entusiasmante qualidade
que transformou toda a música popular e erudita do século 20,
deixando-nos a beira deste impasse nestes anos, problemático entre
todos, do início do século 21.
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